1 de junho de 2010

A Umbanda em Guarapari: A História de Huascar

Guarapari, pequena cidade litoranea situada `as margens do Oceano Atlantico, no Estado do Espirito Santo, tem nas areias monaziticas seu atrativo para turistas que procuram tratamento para reumatismos. Atualmente, em 2008, possui pouco mais de 110.000 habitantes, mas no verao este numero atinge cerca de 300.000 pessoas. Sao turistas oriundos de diversas partes do Brasil e do exterior que buscam nas chamadas areias pretas, a cura para seus problemas de saude. Devido a isto, recebeu a alcunha de Cidade Saude.
Guarapari, desde o inicio do seculo XX vem recebendo muitos turistas que saem do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Sao Paulo para visitar suas praias mais famosas, tais como a Praia da Areia Preta, Praia das Castanheiras e Praia do Morro. Muitos deles chegam a fixar residencia permanente ou adquirem algum imovel para garantir sua estadia nas temporadas de maior fluxo, como no verao e nas ferias de julho.
Guarapari, assim como Anchieta, foi palco do trabalho evangelizador de Padre Jose Anchieta, na epoca da colonizaçao do Brasil. Como a cidade fica na rota de acesso entre Anchieta e Vila Velha, antiga capital do Estado do Espirito Santo, inevitavelmente o padre passava pela Vila de Guaraparim e ensinava os preceitos catolicos aos indigenas.
Ate 1950, o acesso ao centro da cidade so´ era possivel atraves de balsa, pois ainda nao havia ponte. A partir da construçao da ponte de Guarapari, a cidade passou a receber maior quantidade de turistas e o trajeto ate Anchieta foi usado com mais frequencia.
Sendo uma cidade tipicamente catolica - com excessao de uns poucos protestantes batistas e luteranos - a populaçao do inicio do seculo nao via com bons olhos a chegada de uma nova crença que envolvia o contato com os seres espirituais. A Umbanda foi chegando de forma vagarosa na cidade e os mediuns que abraçaram a Novel Religiao nao podiam se expor, tamanha era a discriminaçao que sofriam.
As primeiras noticias sobre a chegada da Umbanda em Guarapari reporta-nos `a decada de 30, quando entao uma pessoa muito conhecida da cidade desempenhou papel importante na divulgaçao e na expansao da fe´ umbandista.

Huascar Correa Cruz, contava com quinze anos de idade quando iniciou os primeiros passos na senda do eminente ritual espiritual que no Rio de Janeiro foi denominado de Umbanda. Ate´ entao, o jovem adolescente havia sido criado debaixo de todos os dogmas catolicos. Aos 10 anos de idade ja´ era Coroinha da Igreja de Sao Pedro, em Cachoeiro do Itapemirim-ES. Ainda em tenra idade começou a nutrir um desejo pio de tornar-se Sacerdote da Igreja. Porem foi rechaçado e impedido de ingressar nos estudos, quando da entrevista com os clerigos responsaveis pela matricula de novos alunos no seminario. Suas ideias e seus questionamentos, avançados para a epoca, causaram rebuliço e um deles comentou inclusive: "Este menino tem um pensamento que vai acabar dando trabalho..."
Depois disso, Huascar entrou numa especie de ostracismo espiritual - segundo suas palavras - que o deixou muito desanimado e desiludido. Contudo, os Espiritos tinham outra missao para o jovem rapaz.
Certo dia, com quinze anos de idade, foi levado por um amigo a uma pequena casa de estuque e cobertura de palha, na cidade de Vila Velha-ES. Naquela choupana as pessoas recebiam uns Espiritos que diziam ser de caboclos brasileiros e velhos escravos. Huascar foi `a sessao e passou a observar o que acontecia.
O rapaz, espantado com a visao, ouviu atento `a preleçao do "Caboclo" e fitou os olhos num homem sentado num banquinho e fumando um cachimbo. Era um Preto Velho que viu o rapaz e diriu-lhe a palavra:
" - Sunce ta´ mangando de Preto Velho, mi zinfio?"
Ao que respondeu:
" - Nao, Preto Velho."
O Preto Velho retrucou:
" - Ta´, sim. Preto Velho vai lhe dar uma liçao."
Terminada a sessao, Huascar despediu-se do amigo e foi embora para casa. No caminho, proximo a uma esquina, avistou um vulto que o fez ficar arrepiado. Quanto mais se aproximava, mais os cabelos de sua nuca eriçavam. Ao chegar em frente ao vulto, visualizou um velho negro que lhe perguntou:
" - Sunce ta´ lembrando de Preto Velho, mi zinfio?"
O rapaz reconheceu a voz da Entidade que havia conversado com ele horas antes e, assustado com o fato, saiu em disparada sem olhar para tras.
O encontro inusitado com a Entidade porem despertou-lhe a curiosidade e o interesse em buscar mais informaçoes sobre aquele Ritual da pequena choupana e, assim, passou a ser um estudioso da Doutrina dos Espiritos e da nova religiao chamada Umbanda. Tornou-se um frequentador das reunioes espiritas que ocorriam num Centro de Espiritismo em Vila Velha e na choupana do Preto Velho.
Logo tornou-se um membro da corrente espiritual e, em pouco tempo, ja´ estava servindo de aparelho para uma Preta Velha que descia no terreiro e se utilizava de suas faculdades mediunicas.
Huascar Correa Cruz, iniciou entao um processo de estudos da Doutrina Espirita e dedicou grande parte deles `a leitura e analise d'O Livro dos Espiritos, d'O Evangelho Segundo o Espiritismo e d'O Livro dos Mediuns, de autoria de Allan Kardec.
Adquiriu tambem um livro raro chamado O Evangelho de Umbanda, o que lhe deu os conhecimentos necessarios para o trabalho que deveria realizar em prol da Umbanda.
Huascar Correa Cruz tornou-se, em pouco tempo, um valoroso trabalhador da Seara de Umbanda Sagrada. Desde o primeiro encontro, em 1931, com o Preto Velho que mudou sua maneira de ver a Espiritualidade, pesquisava as coisas do Mundo Espiritual e procurava aplicar em seu dia-a-dia.
Certa vez, ja´ nos idos de 1938, foi visitar a casa de um homem que dizia estar "incorporado" com uma Entidade e que cobrava mil reis por cada consulta realizada. Antes porem, todos os interessados deveriam pagar o direito de entrada, que custava na epoca, dois mil reis.
Huascar cumpriu o protocolo e entrou no recinto. Ao encontrar-se com o homem supostamente mediunizado, encheu-se de autoridade e determinou que ele parasse com aquela pantomima, ja´ que tudo nao passava de uma pura e ingenua mistificaçao. Condenou-o tambem por nao cumprir as ordenanças da Espiritualidade que nao aceita o pagamento pela prestaçao da caridade. A confusao foi instalada no lugar e o homem acabou por fechar o consultorio.
Envolvido com a Espiritualidade e comprometido com a divulgaçao e expansao da nova religiao, Huascar fundou o Primeiro Centro de Umbanda em Guarapari, chamado Centro de Irradiaçao Espiritual do Himalaia. O Centro ficava no alto de uma pedra, na entrada da Cidade, onde hoje esta localizada a cabeceira da ponte de acesso ao Centro do Municipio.
Abastado, Huascar ergueu um muro de arrimo na encosta da pedra e ali levantou as paredes do Centro de Umbanda que serviu de inspiraçao para tantos outros que seriam construidos a seguir. Estava lançada assim, a Pedra Fundamental da Umbanda em Guarapari.
Apesar de todo o esforço empreendido em favor da Religiao, Huascar viu seu trabalho sofrer uma grande perda quando, por volta de 1950, o processo de desenvolvimento urbano de Guarapari forçou-o a ceder o local onde estava instalado o Centro de Irradiaçao Espiritual do Himalaia para instalaçao da cabeceira da Ponte que ia ligar o bairro de Muquiçaba ao Centro da cidade. E, desta forma, aconteceu o inevitavel. O primeiro templo umbandista foi derrubado para que o progresso atingisse o Municipio. Foi por essa ocasiao que o Sr. Huascar teve o primeiro encontro com uma outra via espiritual que o deixou deveras encantado.
Em 1953, numa viagem que fazia a Belo Horizonte, conheceu o Mestre Sevananda (leia-se Sevanhanda) que naquela epoca era Patriarca da Igreja Expectante. A admiraçao que sentiu foi tao grande que decidiu conhecer mais a fundo a doutrina da igreja e sua filosofia. Em 54 visitou o Monasterio AMO PAX, e adquiriu novos conhecimentos espirituais e esotericos.
Mesmo encantado com a Igreja Expectante, Huascar nao abandonou de imediato a Umbanda, mas continuou a militar dando passagem `as Entidades, trabalhando e realizando palestras em terreiros de Guarapari. Fez questao de denunciar os abusos cometidos em nome da Religiao tais como a comercializaçao dos dons mediunicos, a mistura exagerada com os ritos de outras crenças e a falta de postura de certos mediuns que se diziam estar incorporados pelos Guias. Observando o que acontecia com as casas de Umbanda que adotavam o uso de atabaques e outras ritualisticas africanistas, criou o termo pejorativo "Umbandomble´". Porem, em 1970, Huascar Correa Cruz tornou-se Patriarca da Igreja Expectante logo apos o falecimento de seu Mestre Sevananda, encerrando definitivamente sua passagem pela Umbanda Sagrada.

25 de maio de 2010

História da Umbanda - Parte 1 - Introdução

A História da Umbanda Sagrada não pode ser desvinculada da figura memorável do médium Zélio Fernandino de Moraes, carioca da cidade de Niterói - Rio de Janeiro. O primeiro ritual; a primeira menção do termo "umbanda" (tão propalado e tão analisado) e a primeira tenda verdadeiramente instituída, tiveram início a partir do assustado rapaz de dezessete anos de idade, nos idos de 1908.
Várias foram as tentativas para tirar o mérito do jovem Zélio.Várias foram as hipóteses levantadas para dar uma nova gênese para a Religião que estabilizou-se como um autêntico culto brasileiro. Idealizaram, ao longo dos anos, diversas teorias para explicar a origem de algo tão simples e tão espetacular ao mesmo tempo como é a Religião nascida no distrito de Neves, em Niterói.
Mirabolantes idéias surgiram e foram se espalhando pelas cidades brasileiras ao mesmo tempo em que a Umbanda crescia e se estabelecia como a mais nova crença espiritualista do Brasil. Livros e mais livros foram escritos com esse propósito. Como citam alguns autores, quiseram "enbranquecer" a Umbanda; quiseram africanizá-la, tentaram milenizá-la e procuraram explicá-la do ponto de vista esotérico (modismo das décadas de 70 e 80) e do ponto de vista cabalístico (a partir da década de 90), tal é o fascínio que a menininha brasileira desperta nos estudiosos.
Outros, de forma preconceituosa, jogaram pedras e espinhos no caminho da Umbanda. Quiseram enlamear sua branca bandeira da caridade, acusando-a de feitiçaria, bruxaria, curandeirismo, demonismo, baixo-espiritismo e outros termos pejorativos, cheios de discriminação.
A Umbanda foi ultrajada, mal-falada, incompreendida e achincalhada, mas fixou suas bases nos corações de mulheres e homens necessitados, conquistou o amor de verdadeiros e corajosos baluartes da Religião, ganhou a confiança de indivíduos cheios de tabus religiosos e dogmas castradores, avançou em meio a uma sociedade preconceituosa e intolerante e se firmou no cenário religioso brasileiro como a Única Religião originariamente brasileira.
Controvérsias à parte, a verdade é que a Religião de Umbanda tornou-se um verdadeiro pronto-socorro para pessoas aflitas e desenganadas. Através das mansas palavras dos Pretos Velhos, espíritos cujas força e paciência são admiráveis, e das receitas miraculosas de banhos e garrafadas à base de ervas ensinadas pelos Caboclos, muitos encontraram a salvação em tendas e terreiros erguidos em fundos de quintal, em pequenos Congás improvisados a partir de aposentos domésticos ou até mesmo debaixo de arvoredos ao ar livre. Criaturas humanas consideradas loucas ou esquizofrênicas descobriram o equilíbrio e a inevitável condição de médiuns nas reuniões umbandistas chamadas Giras.
Graças aos Pretos Velhos e à sua linguagem característica carregada de palavras utilizadas no período colonial brasileiro e aos seus maneirismos na utilização de cachimbos, pembas, velas e rosários, a Umbanda recebeu a fama de ser uma religião africana. Quiseram relegar os amados espíritos conhecidos como Pai Antônio, Pai Joaquim e Maria Conga ao gueto, considerando-os espíritos atrasados e cheios de vícios materiais. Devido aos banhos, remédios, charutos e brados de Caboclos conhecidos pelos nomes de Sete Flechas, Jurema e Pena Branca, lançaram o veredito de que a Umbanda era apenas uma das muitas ramificações da pajelança e dos extintos cultos indígenas brasileiros. Alguns quiseram até mesmo torná-la um pouco mais aceitável, buscando nos antigos povos Maias, Incas e Astecas, a origem milenar dos espíritos que se apresentavam como simples caboclos.
Os rituais de mesa, a utilização do Evangelho Segundo o Espiritismo, as preces e a propagação do nome de Jesus dentro dos terreiros foram os motivos para que muitos homens se levantassem do silêncio e do anonimato e se arvorassem como profundos entendidos das coisas espirituais e classificassem a Religião de Umbanda como uma forma deturpada do espiritismo de Allan Kardec. Levantaram-se armados com livros e força policial para fechar as casas umbandistas e aprisionar os médiuns, homens e mulheres simples que apenas queriam ajudar o próximo. O amor e a compreensão deram lugar ao ódio e à intolerância. "A caridade, ensinamento primordial de Jesus, não podia ser realizada por pessoas leigas e atrasadas em sua evolução intelectual".
O sincretismo com outras crenças, fato extremamente necessário à expansão da Umbanda, causou comichões em vários teólogos e defensores da fictícia pureza das doutrinas já estabelecidas. A presença de determinadas imagens nos altares de Umbanda, algumas rezas e a utilização de objetos oriundos de ritos católicos despertou o furor de alguns beatos que passaram a acusar os umbandistas de hereges e os chefes de terreiro de falsos profetas da idade contemporânea. Outros, mais enfurecidos, iniciaram uma campanha silenciosa para descrédito da veracidade da existência de personagens históricos como São Jorge e os Santos Cosme e Damião, justamente pelo fato de serem honrados nos Pegis de Umbanda.
O crescente número de charlatães e mistificadores no seio da Umbanda, fato inerente a todas as religiões do mundo, provocou as autoridades que encontraram motivos de sobra para invadir casas particulares e terreiros. Já a vaidosa sabedoria de uns poucos homens que se denominavam mestres e doutores, fez com que surgissem diversas facções dentro da novel religiao, transformando associações e federações em quartéis generais fortemente preparadas para uma batalha de interesses. Surgiram então, os vários órgãos, conselhos e outros agrupamentos rivais entre si. As diferenças de opiniões partiram dos centros vizinhos e ganharam os Estados brasileiros.
Mas, em meio a esse turbilhão de fatos negativos, a Umbanda conseguiu sobreviver e não sucumbiu diante das intempéries. A forte e vigorosa Umbanda Sagrada atravessou os escombros e atingiu o outro lado da situação. Avançou, ao longo dos anos, a passos lentos, firmes e cheios da autoridade dos Espíritos Mentores de Aruanda. Apesar dos ventos fortes contrários, a bandeira da Umbanda prosseguiu empunhada pelos reais defensores da Caridade e completou Cem Anos de existência no Plano Material. Humilde como uma pomba, mas Forte como um Leão, nao se deixou abater.

Foto do Zélio: Retirado do Site Registros de Umbanda, to texto de Fernando Guimarães
http://registrosdeumbanda.wordpress.com/2009/12/13/o-vereador-zelio-fernandino-de-moraes/